terça-feira, 1 de novembro de 2022

 

Prece de Cáritas

Deus, nosso Pai, que sois todo poder e bondade, daí forças aqueles que passam pela provação, daí luz àqueles que procuram a verdade, ponde no coração do homem a compaixão e a caridade!

Deus! Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso.

Pai! Daí ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai.

Senhor! Que a vossa bondade se estenda sobre tudo que criastes.

Piedade, Senhor, para aquelas que Vos não conhecem, esperança para aqueles que sofrem.

Que a Vossa bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda a parte a paz, a esperança e a fé!

Deus! Um raio, uma centelha do Vosso amor pode iluminar a terra; deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão. Um só coração, um só pensamento subirá até Vós como um grito de reconhecimento e de amor.

Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos, oh! Bondade, oh! Beleza, oh! Perfeição, e queremos de alguma sorte merecer a Vossa misericórdia.

Deus, dai-nos força, ajudai o nosso progresso, a fim de subirmos até Vós; daí-nos a caridade pura, a humildade; dai-nos a fé e a razão, dai-nos a simplicidade, que fará de nossas almas o espelho onde se há de refletir a Vossa Divina Imagem!

Que assim seja!

sábado, 26 de março de 2022

Preto Velho Vô Bizú identifica os antigos Senhores na família

reunião 04 de Agosto de 2015


            

          Aberto o trabalho:
 Vô Bizú: ---Adorê às almas! A benção pra vocês! Faz tempo que o nêgo véio não vem... Arranja um pito ... Busca lá cinco espadas de São Jorge, grandes. 
Perguntou a mim: --- O fio tá se sentindo bem depois que foi libertado do peso de tantas almas pra encaminhar?
       --- Acho que sim Vô Bizu, o que o vô acha?
      --- É você que tem que achar fio? O peso tava nas tuas costas!
      Fiquei considerando ser por causa das minhas obrigações com as almas, obrigação de Obaluayê, que toda semana acendo velas para encaminhar as almas para socorro! Mas não afetou muito minha sensação sobre esse trabalho, pois nem era tão intenso, ou ainda não estava notando... 
 
      
        Com uma pemba branca, desenhou no chão um círculo, dentro deste um triângulo com uma cruz, e sobre o triângulo formou um estrela de cinco pontas com as espadas de São Jorge. Fora do triângulo, mas dentro do círculo desenhou sete cruzes e firmou uma vela em cada ponta do triângulo, nas cores preta, azul e marrom.
        No centro do triângulo colocou o braseiro aceso, para queimar ervas. 
        Você pode escrever essa magia para o povo, ela é boa e ajuda muito. Isso o povo da África, principalmente as nações Keto e Angola, fazia para se proteger nas guerras e nos trabalhos perigosos. As ervas é aprendizado dos cabôclos, dos índios do Brasil, pois na África não tinha muitas ervas. Vamos queimar aqui alecrim e arruda e com a fumaça banhar as roupas de trabalho do menino, pois ele precisa de paciência nesse trabalho dele. O alecrim dá o aché do Orixá, o encanto, a atração, o carisma, a graça, e a arruda faz a defesa, a blindagem do corpo ou da aura da pessoa para não sucumbir os ataques dos adversários, não reagir negativamente às críticas, não se abater. A arruda oferece essa couraça. Assim a pessoa fica com magnetismo do alecrim e com a arruda fica protegida, porque o encanto também atrai perseguição dos invejosos.
       Explicando e trabalhando, o Vô Bizú foi colocando alecrim pra queimar e com a  fumaça defumava as roupas, os uniformes, os trajes cenográficos de profissão do médium, e com arruda defumava outras peças e explicava e trabalhava. Defumou também duas garrafas de cerveja artesanais fabricadas pelo médium e seu irmão, que seriam presenteadas a um amigo dele que sofria com obsessores e depressão. Observou que esse amigo era muito desconfiado e decerto não ia beber presente vindo dele. Além do mais, esse amigo era um doente que não queria sarar, pois também se acostuma com obsessores e sente falta deles quando são afastados.

 ----- O menino hoje viu um retrato de algum parente não foi? Tá na cabeça dele essa imagem...
  ----- Foi a foto do Bisavô dele, quando fomos visitá-lo no Ceará, esclareceu a mãe.
 ----- Pode trazer esse retrato pro nêgo véio vê?
       Logo trouxe essa foto e outra foto do bisavô e da bisavó juntos.  Assim que o Vô Bizú pegou as fotos, na hora esclareceu,
  ---- Esse aqui foi o sinhô dele e sinhô meu, que nos castigou muito....
       O Vô Bizú chorou nessa lembrança, demorou num pranto profundo...Lembranças dolorosas dele e do médium de encarnação passada...E endereçou palavras ao desencarnado bisavô...
----O Sinhô, pague sua dívida com esse menino, pague pra se libertar...
     Eu quis saber se era o Sinhô, ou era o sinhozinho filho do Sinhô fez as maldades finais na senzala...
----- Sinhozinho sempre foi pior que Sinhô, mais inconsciente, mas foi graças a esse sofrimento que libertei de tudo...Esse homem era o verdadeiro demônio para os negros escravos, matava até criança no chicote por puro prazer, humilhava de toda maneira...---pediu um pouco de marafa branca --- Foi esse mesmo, que você já escreveu a história, que o Bahiano Toninho lhe contou... É a mesma cara, a mesma aparência. Parece um homem tão bom não é? 
---- Parece mesmo, só conhecemos ele já com  oitenta e um anos. A fama de ruim sempre foi da senhora dele, a bisavó...
-----Se ele é ruim, você pode imaginar muito pior a mulher dele, mas o assunto agora é ele, um de cada vez. Essa herança que vocês têm para receber dele, é ele mesmo que não deixa os netos desapegarem, mas é a salvação para o próprio sofrimento dele. Ele tá num buraco profundo, num grande sofrimento, e só eu posso ir até lá. Hoje foi aberto esse portal, por esse circulo de magia aqui, e por ele eu vou até lá. E vou agora, o seu Sete e outros vão comigo, o seu Tranca Rua vai ficar com vocês nessa vigília até apagar essas velas. Uma grande coisa aconteceu hoje. Agora sei o caminho.  Já vou meus filhos, seu Tranca vem ficar com vocês...Adorê as almas! A bençao!

         Foi-se a trabalho o Vô Bizu e chegou o seu Tranca Ruas, vozeirão, alegre, na paz! 
        --- Laroiê !!!

         ---- Uma coisa muito dificil de acontecer aconteceu hoje. Se eu não estivesse na paz que estou com a nova situação que estou com minha mãe, não ia acreditar que essas coisas acontecem. Eu achava que nunca ia resolver minha situação com minha mãe, mas a coisa se resolveu por si. Deus tem a hora certa pra tirar do buraco.  
        O nêgo véio foi lá no fundo dos infernos através desse portal aberto aqui, por essas fotografias que você resolveu remexer. Na verdade você obedeceu ao plano da espiritualidade que estava preparando isso. Agora o caminho foi aberto, já se sabe onde encontrar esse sinhozinho. Ele entra lá nesses buracos e nem seu Lúcifer é capaz de impedir, ele rompe as defesas mesmo. Além do mais, seu Lucifer também não tem a intenção de impedir o trabalho do preto véio. Tem uma caravana grande indo lá com ele, outros pretos velhos, caboclos, muita esquerda protegendo e tudo pelo comando de um pretinho véio. Quanto poder que tem!!!
         Então seu Tranca disse para a mãe do médium, a qual também é médium, para trazer o seu exu Sete da Lira
          Mas vamos carecer aqui hoje da ajuda do seu Sete da Lira, minha véia. Você vai trazer ele e vai falar também porque apesar de estar consciente voce fala por ele sim  
        --- Interessante! Hoje eu olhei pra você, Grace, e lembrei da dança do seu Sete da Lira e tive muita vontade de ver ele através de voce. Isso hoje á tarde, nem te falei nada, mas foi uma lembrança forte.
          




quinta-feira, 24 de março de 2022

Um Exu João Caveira

Exu João Caveira é o nome de uma falange, ordem espiritual cujos trabalhadores se apresentam com o mesmo nome de "Exu João Caveira", mas cada um tem sua própria identidade e  história.

                      A história "desse" Exu João Caveira foi transmitida ao médium de maneira inesperada uma vez essa entidade não trabalha com ele. A mim foi transmitida pelo "Seu" Sete Chamas, que é o exu "de frente" do médium.
                      O Seu João Caveira é o exu de frente de uma médium nossa vizinha, e há tempos passados já conversou comigo e o fez muito polida e disciplinadamente, embora os exus normalmente falam desabridamente e na sua enfase não evitam palavrões.
     
                           Eis a história desse Seu João Caveira

            Vivia no Estado de São Paulo, na região de Piracicaba, na primeira metade do século XX. Era pequeno proprietário de terras  limítrofes à area urbana. Viviam ele, sua esposa e um filho, em condições econômicas equilibradas, sem penúria.  
            Caminhava a vida na sua normalidade, quando um fato novo, embora há tempos esperado, aconteceu. Implementaram a construção do ramal da estrada de ferro que ligaria o município de Piracicaba à rede ferroviária do estado de São Paulo. Sentiu-se um sopro do vento da novidade e desenvolvimento, de coisa nova. E para surpresa do seu João, a estrada de ferro passou dentro de suas terras na parte urbana do município. De repente  Sr João viu mais do que triplicar o preço de suas terras que agora eram procuradas por comerciantes e empreendedores. O Sr João logo estabeleceu um loteamento nas áreas mais valorizadas, vendeu alguns lotes para captar dinheiro e em seguida construiu armazéns próximos à estação, alugando a bom preço a empreendedores de trafego de mercadorias e até mesmo à própria companhia ferroviária. Depois disso construiu e vendeu casas ao povo. O Sr. João logo ficou rico, e passou a ser influente na cidade. Mas o que ele gostava mesmo era de empreender, de construir, de movimentar. O Sr João sempre foi pessoa de hábitos simples, como era nessa época e nesse lugar a vida social. Estava rico e respeitado e com muitos caminhos abertos para o que quisesse.
         E nessa plena bonança econômica, financeira e social, a sua esposa, jovem ainda adoeceu misteriosamente e em pouco tempo faleceu. Estava o rico Sr João só, viúvo, com o filho ainda menino. Tudo aconteceu tão rápido que ele nem teve tempo para qualquer consideração. Atordoado, sua atenção foi absorvida pelas tratativas do enterro e do velório cheio de pessoas de toda a cidade. Manteve-se ocupado a receber as condolências e atenções até chegar a hora do enterro mesmo. Ele só conseguiu um momento de reflexão no momento em que o padre rezava o rito fúnebre. O padre rezou as exéquias conforme a liturgia da Igreja, institucional e social, mas o Sr João sentiu falta de calor, de algo mais que não sabia o que era. Sua companheira e amiga estava ali naquele caixão, nos últimos momentos de presença física, e seu corpo seria definitivamente tragado pela terra, nunca mais seria visto e alguma coisa faltava para ser feita que ele não tinha a menor ideia do que seria. Estava ali, angustiado, com se estivesse a transpor um abismo para alcançar e pegar a alça do caixão, quando alguém, um senhor distinto, pede licença ao padre para dizer algumas palavras para o momento. Esse fato é raro em um culto católico, mas o padre lhe concedeu a palavra. Então esse senhor começa a falar, a lembrar algumas caridades e outros atos bons da finada. Demonstrava ter conhecido bem a falecida, sabia de sua vida. Por um momento o Sr João até pensou que esse senhor poderia ter sido amante de sua finada esposa, pois não o conhecia como parente dela. Os presentes estavam envolvidos pela paz e fé das suas palavras que não se preocuparam em saber quem era. Todos acreditavam ser um funcionário da companhia ferroviária. O moço falou tão carinhosa e respeitosamente que atingiu a todos e com muita e especial intensidade o sr João sentiu o quanto foi importante aquele pronunciamento. Era essa fala que ele não sabia que faltava e não tinha providenciado essa caridade para a despedida da sua grande companheira. Providencial foi a iniciativa desse moço e com tão grande desembaraço e profundidade ele falava. Havia ali algo de mágico, espiritual, renovador, algo que vivifica, que dá força e vence a morte, ou pelo menos que é mais forte do que a morte.
               Reanimado e em paz o sr João conduz junto ao povo o caixão levando o corpo de sua esposa ao cemitério. Lá entrega-o à terra, saudoso, agradecido, certo de que ela ouvira aquele discurso, certo de que ela estava bem, de aquele momento final era só uma passagem, pois a vida é muito maior. 
              Tudo terminado e todos retornando a suas casas o sr  João tentou encontrar o moço que falou na igreja. Não encontrou naquele momento e nem depois, porque ninguém sabia quem era e ele nunca mais foi visto, só tinha a aparência de familiaridade mas não se sabia de onde tinha vindo nem para onde se encaminhara.


A VIDA CONTINUA  

             E seu João continuou seu trabalho, seus negócios e sua vida pacata, agora com seu filho. Seus negócios sempre bons e suas relações sociais reservadas. Passou algum tempo e vieram avisar que um amigo  havia falecido e estava sendo velado. Seu João foi ao velório na casa do finado, transmitiu os pêsames aos filhos e à viúva, participou da monótona reza do terço, e acompanhou o rito na Igreja. Assim que o padre terminou as exéquias sentiu necessidade de que algo mais fosse feito para concluir a despedida. Então se lembrou da palavra proferida no enterro da sua esposa. Dirigiu o olhar ao público esperando que alguém aparecesse para falar, mas viu que isso não ia acontecer, pois já se movimentavam para transportar o esquife. Não, isso não poderia terminar assim, era um bom amigo, conversavam tantas vezes, era preciso algo mais, e sentiu o impulso de ele mesmo falar. Mas falar o que? Não tinha se preparado para isso. Mesmo assim o sr João ousou e pediu permissão ao padre. Foi atendido e começou sua fala dirigindo a palavra diretamente ao amigo morto, como se este estivesse a ouvir. Agradeceu os bons momentos em que conversaram, o quanto lhe fizeram bem e conforme ia falando, idéias fluíam na sua mente, lembrava-se surpreendentemente de pormenores da amizade, essas ideias surgiam calorosas, coloridas, envolventes que comunicava também aos presentes, como se estes mesmo externassem aquele sentimento. Terminou dando as despedidas junto com todos os presente que ainda permaneciam nessa terra para cumprir tão bem como ele aproveitara a sua existência. Sua fala atingiu os corações dos vivos e oxalá os mortos tivessem também ouvido.
           Cumprimentaram seu João pelo discurso tão amistoso, tão inspirado e espontâneo. Seu João sabia que havia falado bem, mas não sabia explicar como isso aconteceu. Inspirou-se sem querer, as palavras eram suas, mas as lembranças brotavam na sua consciência com uma intensidade não explicável, como se sua mente se dilatasse ou como se alguém lhe acendesse o ânimo e ainda ele mesmo acreditasse em toda aquela beleza. Ficou cismado ainda algum tempo até voltar ao normal dos acontecimentos na terra.
           Na verdade seu João experimentou algo novo, mas ainda não sabia explicar. Era muito bom, mas não era seu.  Pensando que talvez tenha sido acidental essa comoção, logo esqueceu o assunto.
           Passado quase um ano, veio a falecer um seu velho empregado. Ocorreu o velório, a missa fúnebre e dessa vez ele sabia que teria de falar, mas não se sentia preparado e o povo presente, na sua simplicidade, também nem cogitava que ele lhes desse tamanha honra. Nesse caso ela estava emocionado, muito agradecido pelos serviços do empregado, mas não tinha o discurso pronto que era merecido. Começou de qualquer forma, agradecendo as pessoas que ali estavam, amigos e familiares do finado e a torrente de gratidão e admiração pela existência de serviço daquele velho que tivera uma vida tão diferente da sua. Percebia a grandeza da simplicidade, do desapego daquele senhor, o via como um amigo que combinou com ele, antes de virem a esta terra, que ele seria o seu servidor e seu João seria o patrão, e nessa missão o agora finado fora muito feliz na sua missão e que deixava para ele e para todos um ensino e exemplo de vida. O seu João sempre foi um patrão justo e respeitoso com seus empregados, mas estava na pele de patrão e sentia sim superioridade aos empregados. Nesse momento deu-se conta de seus sentimentos, era necessário retificá-los porque sentiu a grandeza simples daquele que morrera e sua grandeza era real e o seu João sentiu-se um pouco menor, mas o calor da inspiração não lhe permitiu depreciação a si mesmo.
                               
   







terça-feira, 17 de agosto de 2021

O perdão do Escravo

Ouvida em palestra no centro espirita allan kardek sao paulo
O tema do dia : O Perdão

  Um Senhor de escravos no Brasil foi ao mercado para comprar mais escravos recém chegados da África. Para não ter surpresas ruins, levou consigo um dos seus escravos africanos, já adaptado à terra para ajudá-lo na escolha, Não era um sinhô cruel e mantinha bom interlocução e harmonia com seus cativos. 
     Dentre os negros a serem vendidos estava um homem envelhecido, magro e adoentado quase cego pela doença e pela fome. O seu ajudante cativo sugeriu que deveria comprar também aquele velho.
----Tá louco, Mbanga, esse velho é prejuízo total, não serve pra nada. Não vou comprar ele , mesmo que seja de baixo preço.
 ---- Eu concordo sinhô que ele parece muito mal, mas ele ainda pode sarar e trabalhar bem.

        O mercador negreiro, vendo a possibilidade de um bom negócio, fez a seguinte oferta.

---- Prezado Senhor, esses negros são fortes e darão boa produção. Teu nêgo ajudante conhece. Façamos o seguinte,  Vossa Mercê compra todo o lote desses doze pretos e o velho vai de graça.

----- Pois bem..., de graça eu levo esse velho...
----- Meu Sinhô, deixe que eu tomo conta desse preto velho, vou ficar com ele na minha casa pois que nas senzala só ficam os moço que não tem como cuidar dele nesse momento.
O Fazendeiro então concordou e comprou o lote todo e o velho veio de presente.

    Chegando na terra, o seu ajudante levou o velho pra sua cabana e passou a cuidar da sua saúde. Era visível o cuidado que ele tinha com o preto velho. Lhe banhava, curava as feridas, amparava ele ao andar. O fazendeiro ficou intrigado com todo aquele cuidado aquilo e quis conhecer a razão.

---- Mganga, você cuida muito bem desse  esse velho! Ele é é teu pai?
----- Não meu sinhô, nem pai, nem avô.
---- Então faz parte da tua família, ou é grande amigo,
----- Não Meu Sínhô...esse homem é meu inimigo! Foi ele que me vendeu para os negreiros lá na África. Ele é da minha nação. mas se fez meu inimigo por um desentendimento qualquer e negociou preço da minha cabeça com os comprador de negro e eu cruzei o mar até vossa fazenda, para aqui ter o direito de só trabalhar e mais nada. Mas aqui eu conheci a vida do Nosso Senhor Jesus que ensinou e deu exemplo de perdão. Isso meu povo não conhecia e precisou sofrer o açoite pra aprender. Mas no meu caso é mais fácil porque vassuncê, meu sinhô, nunca tratou mal os pretos que comprou, sempre deu comida e respeito dentro das regras. A vida aqui é melhor do que na minha tribo e agora vou poder perdoar esse preto que me fez esse bem, pra que ele conheça também a misericórdia e fique leve seu coração.

Segunda Estória.

        Era uma vez um homem que não admitia perdoar um desafeto. Então Deus ofereceu para ele uma grande oportunidade e enviou um anjo com uma proposta.
       ---- Sr Amaro, Deus oferece a você a possibilidade de ganhar facilmente cem mil dólares. -- disse o anjo.
    --- Como Deus é bom! E o que eu tenho que fazer para isso? perguntou o homem.
   --- Você terá apenas que desejar o dobro do que você ganhar para o teu desafeto.
---- O quê? De jeito nenhum! Isso é gozação! Não desejo o bem desse tal.
         O anjo olhou para ele algum tempo, deu de ombros e estava para partir quando ele o chamou novamente.
---- Ei espere um pouco aí! É verdade mesmo essa proposta de Deus que pra eu receber uma coisa, o outro vai receber em dobro?
---- É plena verdade.
---- Então eu faço outro negócio. Diz pra Deus que pode me cegar de um olho...

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Tiziu! Sanfoneiro no cangaço !

17 de Setembro de 2017
Dez da noite, terminado o Evan, veio o cangaceiro Seu Corisco.
-Jetoá ! Aché !
=Abra essa sanfona pra que eu passe um aché nela e vosmicê arrisque agora alguns acordes, por favor!
Abri a caixa e retirei o acordeom vermelho, com fole todo remendado, e toquei a primeira metade da valsa Walseríssimo.
= Bom, bonito! o próximo trabalho vai ser de boiadeiro e você pode treinar um pouquinho para alegrar um tiquinho o povo que vier?
Me comprometi. E o cangaceiro "seu" Corisco contou:

 
===Ouvindo essa música me veio uma lembrança antiga que foi muito importante na minha vida. Uma vez nós atacamos uma propriedade e pegamos de lá algumas moedas e levamos junto uma sanfona. No bando tinha um cabra que disse que tocava e ficou o dia todo como o instrumento mas não rendia nada. Depois soubemos que um menino da propriedade atacada era dono do acordeom e ficou até doente com a perda do instrumento. Ele tinha três sanfonas e só levamos uma, pois a gente não podia carregar muito peso e nem podia ficar muito tempo também, mas levamos justamente a sanfona ele mais apreciava.  Pois bem, a gente tava lá tentando escutar alguma musiquinha e eis que chega o moço dono da sanfona, um meio galeguinho lá de seus 15 ou 16 ano e veio sozinho. Os cabras do bando eram todos quase moleques também. O moço explicou a situação e propôs que em troca da sanfona de tanta estimação ele tinha conseguido que seu pai desse lá uma parte de gado. Alguns diziam mata ele logo, outros falavam corta os dedos dele. Outros ainda sugeriram que alguns voltassem com ele até a propriedade e roubasse todo o gado e depois matasse todo mundo. Eu tava como chefe do bando e talvez por inspiração que entendia, decidi outra coisa! "Vamos fazer o seguinte, você fica aqui e toca essa sanfona pra gente ´pois nosso cabra não tá conseguindo tirar moda nenhuma dela. Ele regateou que não podia ficar porque veio sem avisar e a mãe nem ia dormir e ainda poderiam vir atrás dele e ter confusão. Esclareci que isso não tinha problema porque os cabras da fazenda tinham medo dos cangaceiros, sabiam que eram em menor número e não viriam mesmo que soubessem que ele estava lá. Perguntei a ele  se seu pai lhe pagava quando tocava. Disse que não, apenas tocava por prazer e o pai não ligava pra nada daquilo e só lhe pagava os estudos pra cuidar dos negócios depois. Então tá decidido, você fica aqui e tocar a noite toda pra gente e depois você pode voltar e levar a sanfona. E foi assim. Esse moço tocou a noite toda e foi uma festa, todo mundo dançando e bebendo e saiba que nos bandos do cangaço tinha mais mulher do que homem, por modo de que a vida no sertão, dominada pelos coronéis, não tinha sentido, então elas procuravam mesmo uma vida menos enfadonha. Pois bem, O Moço tocou /bonito, começou com musicas do estrangeiro, umas valsas e tal, pois era instruído mesmo o galego e até pensei que fosse estrangeiro, mas ele disse que era dali mesmo e seu sotaque era do sertão. Chegou uma hora que ele até já tava bebendo umas cachaça na madrugada. Raiou o dia, terminou a festa e ele levantou, pegou a sanfona e se preparou para sair. Perguntei pra onde ia. "vou embora, cumpri minha parte no trato. " Nosso trato era pra você só tocar e você até bebeu da nossa bebida. Ele disse que pagaria a bebida. mas respondi. Quem paga o baile sou eu. Você tocou e merece receber e retirei algumas moedas que a gente já tinha dividido do saque da casa dele mesmo. Mais dois outros cabras responderam, também eu vou contribuir como fez o capitão e a festa foi boa e deram suas moedas. Teu pai não dá valor à tua arte, mas nós damos esse valor. Pode voltar pra tua casa, mas como você bebeu nossa bebida essa rês fica pra pagamento. 
Vá com Deus! 

Não deu quinze dias, o moço tava de volta. Voltou trazendo sua sanfona e disse que ia tocar e ensinar o cabra que gostava de tocar e quem quisesse aprender. Nunca mais voltou pra casa. Ficou no cangaço a vida toda e morreu com quarenta anos, quase velho e ensinou muitos a tocar a sanfona e hoje na espiritualidade tem uma falange de cangaceiros sanfoneiros e seu nome é Tiziu, por causa do nome seu nome verdadeiro, Mateus, mateusin, tisin e Tiziu.



terça-feira, 19 de janeiro de 2016

SEU SETE CHAMAS - resgates

           Depois de contar a história do Sr João Caveira, "seu" Sete Chamas contou mais alguma coisa a respeito dele, depois da "passagem".

          Eu já contei pra vocês que morri queimado pela Santa Inquisição no século XVII, quando estava reencarnado como padre. Já falei também sobre as torturas que aplicavam, sendo uma delas verdadeiro horror, o empalamento. Enfiava-se uma estaca no anus e forçavam para que saísse pela boca. Eu já havia sido julgado e condenado e não havia necessidade dessa tortura. Isso se praticava só por vingança mesmo, por prazer em fazer sofrer. Depois de morrer queimado fui para os umbrais muito revoltado e por muitos e muitos anos eu sentia ódio daquelas pessoas, tanto dos que me acusaram quanto daqueles que promoveram o julgamento e tortura. Esse ódio eu vibrava constantemente e por causa disso eu era atraído para as correntes de mesma vibração, sombrias e pesadas e me afundava cada vez mais. E uma vez, lá pelas profundezas que ficam abaixo do castelo do seu Lucifer, alguns reis das trevas, que se ocupam na tarefa da morte, me propuseram que eu reencarnasse com um projeto de vingança. Mostraram onde estavam encarnados os meus desafetos e vi que estavam espalhados por vários países. Logo percebi que eu não teria como pegar eles todos, precisava de ter dinheiro para isso. Eles disseram que providenciariam para que eu encarnasse com posses e que eles me ajudariam a conseguir posses também para realizar minha vingança...Mas eu não aceitei a proposta deles. Não que eu tenha desistido ou me arrependido, mas eu tinha medo desses senhores da vingança. Eram poderosos e perigosos também, e não sei o que fariam comigo depois, pois não faziam nada por amizade ou caridade. Depois dessa conversa eu fui me desesperando da  vingança, mas sofrendo revoltado e depressivo.
      Vagando nessa situação, uma vez apareceram alguns chefes cavaleiros exus de regiões mais para cima e se aproximaram de mim e conversa vai conversa vem algum deles me disse: --- Esse ódio, sofrimento, depressão e revolta que você sente não é por causa do teu martírio, da morte dolorosa que você teve. Lembre-se da tua vida, do que você fez antes da tua morte e veja se você não produziu dor e desgosto nos outros, pois é isso que produz essa amargura.
         Aquela palavra me pegou de surpresa e me fez lembrar de muita coisa que eu tinha esquecido. Eu já disse que era padre e eu dormia com as esposas dos donos do lugar quando esses viajavam e se ausentavam anos e anos. E essa prática continuava até mesmo depois de eles terem retornado por causa da falta de atenção deles para com suas esposas. Mas até aí tudo bem, mas não contei tudo pra vocês. Em algumas situações, para me vingar de falta de respeito com a minha pessoa, eu joguei na cara de alguns maridos ou quanto eu era melhor do que eles com as mulheres deles. Esses homens foram de tal modo atingidos que nunca mais tiveram alegria na vida. Pelo menos um deles matou a esposa, outros ficaram de tal modo desonrados que caíram em desgosto e depressão até a miséria e morreram me culpando, mesmo por eu ter sido justiçado vivo na fogueira. E como morreram em angústia e depressão, mesmo depois de mortos vibravam suas amarguras e estas me oprimiam. Essa sintonia nos sentimentos que minha petulância produziu em vida, me torturava e eu culpava os verdugos que me feriram as carnes. 
        De qualquer maneira isso era o meu desenvolvimento, eu ainda era espírito novo. Mas se eu tivesse a capacidade de me conter e não ferir os brios dos outros, o sofrimento da tortura se converteria em luz após ir para o mundo espiritual, apesar até das incontinências da carne. Afinal são necessidades que torturam também e nesse ponto aqueles esposos humilhavam suas mulheres que para sobreviver necessitavam pelo menos aliviar o fogo da necessidade, senão enlouqueceriam nas depressões e histerias. Nesse ponto eu fui instrumento de vida e se me mantivesse em silêncio, mesmo que não fosse torturado, não ficaria a morrer nas depressões do mundo dos mortos.
         Quando morremos muitas vezes esquecemos as coisas ....Pois muito bem...depois dessas lembranças a revolta acabou, senti enorme arrependimento pelo sofrimento que causei, o que prova que eu tinha avançado no caminho da vida, e revi meu projeto de reencarnação. E foi assim que reencarnei em 1940 no estado de Pernambuco, como menino negro, filho de um estupro, causando embaraços para minha mãe e aos sete anos fui embarcado em um pau de arara para esta cidade de São Paulo.  Aqui cresci na malandragem, virei ladrão de carros, não matei ninguém, roubei muitos carros e nunca fui dono de nenhum. O sofrimento que causei roubando carros foi apenas material, e ninguém morreu de raiva por causa disso. Não matei nem torturei e morri queimado pelos colegas ladrões. Comparada com a reencarnação anterior, como padre estudado, jovem e orgulhoso e que fez tantos sofrerem pelas suas palavras, essa última reencarnação como talentoso ladrão de carro, mas humilde que se contentava apenas em viver a vida no seu dia, me faz muito bem.






terça-feira, 13 de outubro de 2015

MARIA CATIÇO, VIDA NA MORTE (como ela contou)

                 A MORTE, O SONO E O DESPERTAR NO CEMITÉRIO


     Morri na rua. Estava velha para continuar prostituta, fui despejada e fiquei na rua mendigando, sofrendo todas as humilhações até que um dia morri.
                      Morri e fiquei uns cinco anos deitada de olhos fechados e então veio um irmão lá de baixo, bateu nas minhas costas, deu um fôlego.       Virei pra ver quem era, ele ficou me olhando e falou: já me conhece, teu irmão teu amigo.--era seu Mata Virgem e disse: a tribo não deixa suas mães de leite desamparadas. Ele falou e partiu, eu quis acompanhar mas não consegui. Vi ele de capa preta se afastando...
          Vários tentaram me acordar...Acordei toda suja, lixo pra todo lado, cara suja...e então reparei um grupo de moças conversando e rindo muito, dançavam e bebiam... e perguntei a elas onde eu estava... ---você não vê onde você está? Faça um esforço, veja se consegue enxergar este lugar! -- Fiz um esforço, mas não conseguia ver, então ela estendeu sua saia na minha frente e me mostrou onde eu estava e era em um cemitério. ---O que vim fazer aqui? Como vim parar aqui? --- Pensei que tinha ido sem querem para lá e então dormido ....A moça me chamou: Ei minha filha vem cá e veja! ---Estava escuro, ela me mostrou um tumulo de terra e disse! Veja! O que tá escrito aqui? --- Nada estava escrito. Eu fui enterrada como indigente, ninguém sabia quem eu era, mas tinha lá uma fotografia minha e eu me lembrei dela....
     Então morri???
     Elas gargalharam... hoje dou risada também, mas naquele dia estava desesperada. Briguei com elas dizendo que aquilo só podia ser brincadeira. Então Tatá Molambo, um pouco diferente de Maria Molambo, mas todas são mães Molambo, essas damas esfarrapadas, disse: ---Você morreu e precisa aceitar isso...Todos morrem, mas  a vida continua!
    Fiquei ali naquele lugar meditando, conversando com elas, por volta de dez anos e elas se revezavam e chegavam outras Molambos, outras Padilhas, outras Damas da Morte, outras Caveiras, sempre se revezavam e eu ficava sentada ali. Ofereciam bebida, mas eu tinha medo de aceitar. Aos poucos foi ficando mais íntimo o contato e me davam bebida.
     Então um dia elas estavam sem beber e estavam sérias. 
---Acabou nossa bebida, e acabou por tua causa. Não tenha medo, não faremos nada contra você você. Mas estamos sem beber por tua causa --- e ficavam sérias. 
No outro dia novamente estavam sem bebida e estavam sérias e eu perguntei : ainda não veio a bebida? 
--- Elas responderam: Ainda não, e a culpa é tua. 
Essa situação se repetiu por volta de sete anos... Então eu falei: 
--- Nossa.., era tão gostoso antes, por que ficou assim? --- 
Elas responderam: Você não traz bebida para cá!:
--- "Mas eu não sei onde pegar!"  
----Então por que você não vai trabalhar? 
--- Mas como é que faz para trabalhar? 
---Vou te ensinar. 
Ela indicou a extensão do chão do terreno e disse:--- Tá vendo tudo isso aqui? Vai andando e vendo quem ainda está lá dentro e tenta acordar e chama para sair, esclarece a situação!


O PRIMEIRO TRABALHO NO CEMITÉRIO E O DIVIDIR
    A partir desse momento eu comecei a trabalhar e acordar os espíritos dos mortos para a nova vida. E então elas começaram a receber bebidas. Não me davam mais, e eu também tinha medo de pedir, até que um dias elas me chamaram.
----Vem cá Maria, olha, esta é pra você! Me deram uma garrafa.
--- Não! Eu deixei vocês tanto tempo sem bebida...
--- Essa garrafa é todinha para você! Pegue!
Eu peguei, abri, bebi um pouco e fechei a garrafa.
Elas disseram: Ei! Não tem vergonha? Não vai dividir com a gente? Nós dividimos com você nossa bebida!
---Mas vocês mesmas disseram que esta era minha!...
--- E você aceitou isso? acreditou que é só teu? --- Essa foi a maneira que elas usaram para me fazer entender que eu deveria ter dividido também meus problemas, porque eu havia matado dois filhos pequenos por acreditar que eram só meus e não tentei dividir o problema com outros. Eu tinha uma crença errada. Fui abandonada pelo companheiro ficando com dois filhos pequenos para criar sozinha, sem trabalho, etc., e me desesperei... mas se buscasse dividir esse problema com toda certeza iria conseguir e não precisaria chegar a matar os filhos... Eu não sabia dividir...isso era crença falsa e orgulho também. Tinha aprendido com aquelas Pomba Giras a dádiva da divisão, da colaboração,....
    Então fiquei trabalhando no cemitério e dividindo as coisas com elas, mas não sabia fazer direito aquele trabalho e perguntei: ---Tem alguém que manda vocês fazerem os seus trabalhos? Elas  responderam:
 --- É a Padilha que me manda.   
--- A Caveira que me manda..
--- A Molambo que me manda...
--- A Da Morte que me manda
Então eu disse: ---Vocês precisam mandar eu fazer alguma coisa,
Responderam: Não somos tua chefe.
---- Se vocês não me mandam, alguém tem que me mandar, que ser minha chefe, para que eu consiga fazer o trabalho direito.
   Então elas disseram:
   ---  Mas o teu trabalho é nos catiços. 
Já tinha ouvido falar, mas não lembrava o que era e elas não me esclareceram mais nada. Continuei o meu trabalho de tirar, chamar, acordar e esclarecer os espíritos que ainda estavam nos corpos, nas covas, até que um dia eu achei uma índia velha, que me disse que já sabia que tinha morrido e que estava alí só descansando um pouco.
Eu expliquei para ela que eu estava trabalhando alí. Ela perguntou: ---Com  quem você trabalha?
 Eu respondi: --- Com os catiços. 
E ela: --- Então você está trabalhando errado.
--- Pode ser, mas eu trabalho e você vai trabalhar também.
--- Você vai trabalhar pra mim.
--- Não vou não, eu estava aqui antes e você vai trabalhar pra mim.
--- Nada disso, você vem comigo --- e me batia com um pauzinho...
--- Então qual é o trabalho?
--- Venha comigo. 
E saimos do cemitério. Me despedi das moças, agradeci a elas por terem ficado comigo e até hoje ofereço bebidas a elas, que ficaram comigo tanto tempo e não cobraram nada, e falei que sempre voltaria.
           Eu fiquei tanto tempo no cemitério porque nem sabia que tinha morrido, e eu também não tinha ninguém na vida! Alí era o único lugar que combinava com a minha energia, eu era sozinha, completamente sozinha...Vocês pensam que o cemitério é aquele silêncio, que não tem ninguém? O cemitério é cheio de gente, tem muita festa, muita briga, briga que depende da evolução e do morto, pois tem morto que está lá e só vê a sí próprio, atravessa o burburinho, é visto mas não vê nada, porque sua crença quando vivo, era um crença de morte e não querem ver nada. Crença é perigoso! Crença preconceituosa vitima quem a tem!Até mesmo kardecistas ficam lá esperando uma caravana vir buscá-lo, vêm o pessoal trabalhador bebendo, mas não se aproxima e nem quer falar com eles por causa do preconceito e geralmente é esse pessoal que vai se aproximar dele, pois a bebida é usada par quebrar os preconceitos. Por isso é bom conversar com pessoas de outras religiões e crenças e procurar encontrar os pontos em comum em todas as tradições.
     Temos que pedir as coisas. Eu nunca pedi nada, quis fazer sozinha e só fiz besteira, tem sim, que pedir!
 
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O trabalho com os Catiços
                
                 Comeceu a trabalhar com os catiços, comecei a trabalhar com ela em portas de terreiros de candomblé, terreiros de umbanda que estavam começando naquela época. Fazia limpeza, tirava coisa ruim, amarrava e ficava tudo alí. Não demorou que aquilo começou a me cansar, era muito pior do que trabalhar no cemitério acordando os espíritos. Aquele trabalho era monótono, davam pouca bebida, não tinha graça, tinha menos festa. Eu falei para ela que tava muito monótono para mim, pois eu só tirava as cargas e mantinha alí. 
Ela perguntou: ----O que você fez na tua vida? Afinal, o que você fez de bom na tua vida? Algo de bom você deve ter feito pra vir conversar comigo. 
.--- Eu lembro que eu era enfermeira. 
---- Você amarrou um monte aí. Precisa curar e você é enfermeira! E está aí parada achando que não tem serviço?
---- Mas eu não tenho ferramenta, -- São as facas e estiletes com que trabalho!
---- Construa na tua cabeça, na imaginação!
  Bem, não consegui construir nada e tentei durante sete dias! Então ela viu que eu não conseguir as facas e então ela pediu que um filho trouxesse facas para ela. Ele trouxe e ela falou que ia guardar e o filho pensou que fossem para ela usar. Ela montou um kit de socorros. 
--- Aqui tem mais algumas coisas que você precisa, e juntou algumas ervas também que ela conhecia.--- Agora vai trabalhar, vai curar!
      E eram curas materiais mesmo, aquele monte de gente, muitas kiumbas com as feridas do corpo ainda no pensamento. Era difícil trabalhar, não deixavam tocar, nem dar pontos. Era um campo de guerra mesmo. A partir do momento em que comecei a trabalhar eu vi a falange do Dr Fritz. Eu não via, mas enquanto eu estava ali, outras pombas giras estavam trabalhando com faquinhas enferrujadas e tudo. Então comecei a gostar e fiquei um tempão trabalhando nisso e então uma vez veio uma criança lá. Eu me emocionei pois não sabia que eles tinham crianças nessa situação. Me fez lembrar dos meus filhos. Não consegui tratar dessa criança.
----Aconteceu alguma coisa? --- perguntou a índia. 
Então contei a história para ela, que tinha sumido da minha mente, e eu disse que na minha vida matei duas crianças.
---- Teus filhos?
Fiquei parada!
---- Você não quer saldar o seu débito?
Eu não lembrava disso. Fiquei com amnésia. Então ela disse:
--- Façamos o seguinte: Hoje você não vai mais vir às tendas trabalhar. É muito fácil para você esse trabalho! Você vai trabalhar com os católicos.
Nessa época a maioria dos hospitais eram católicos, de freiras. Entrei para trabalhar na ala pediátrica daquele lugar. (Veja você minha filha, como nosso trabalho é muito parecido? Você trabalhava na creche, encaminhava os que adoenciam para o Santa Marcelina e eu ia lá e cuidava. Todos os hospitais de nomes de santo eu ia.)  Assistia muitas missas bonitas na capela, missas boas, tanta gente trabalhando ali e com tanto crédito espiritual, que até eu também me sentia em crédito, em bem estar. Estavam vivas ainda, encarnadas ainda, e com tanto crédito. Elas não me escutavam, mas eu escutava e conversava com elas.Tinha lá uma irmã que consegui ver, mas não falava para mim que me via, e às vezes eu me lamentava e ela falava: Olha, não faz isso, porque Deus está nos olhando...! Terços e terços eu rezei. Muitas coisas fiz e aí fiquei trabalhando na pediatria e uma dia -- para completar essa lua bonita que está fazendo e você vai escrever essa história e toda história de exú é atrativa em face das da direita, porque interessa mais a vocês também....
        E um dia me sentindo tão creditada, gastei todos os meus créditos em bebidas, frequentei muitos terreiros, recolhi muita bebida e todas as oferendas, que os vivos exageram em fazer, e la fui eu levar tudo -- e era muita mesmo, pois os candomblés estavam esbajando e levei todas para o cemitério, para aquelas mulheres que me ajudaram, as Molambos, as Padilhas, as Caveiras, as da Morte, e disse: ---todas essas oferendas são todas tuas. Rosas, champanhe, frutos. ---É isso que tenho a oferecer para vocês com agradecimento! Na verdade elas recebiam o dôbro daquilo, mas escondiam o que elas tinham para que eu me valorizasse com o pouco que levei. Veja como são as pomba giras, são humildes, não ficam de briguinhas que os mediuns inventam, elas já passaram pelo casco e elas sabem, sabem ser! Elas bebiam e tal e disseram: --- já que você aprendeu a dividir as suas coisas, vamos dividir mais uma coisa com você. Sabe o túmulo que te mostramos com aquela foto? Ele é teu mesmo, não é de outro morto! Só que você se lembra dessa foto? Amiga, tenta lembrar! -- Tentei lembrar, mas não consegui. Estou contando isso agora porque veio nessa casa um Zé Pelintra, que o filho trouxe. E Zé Pelintra tem em todo lugar! Não é sobre esse Zé Pelintra que eu vou falar, mas teve um Zé Pelintra na minha história.

                                    Um Zé Pelintra???? 1890???

         Quando eu viva no bordel, me envolvi com um homem que tornou menos amarga minha vida, me tratou com doçura e conversou coisas lindas comigo, me fez eu me sentir gente por um tempo. Esse negro se trajava muito bem, de terno de linho branco e de chapéu branco também. Sempre que ele chegava, pedia uma garrafa, pagava bem e pedia para ter horas comigo, e muitas vezes ficava mais de um dia no meu quarto, e nesses contatos ele mexeu nos objetos que eu guardava e roubou uma fotografia minha e sumiu do cabaré. Logo depois eu fui despejada, já estava velha,e fui morar na rua. Sem me encontrar no cabaré, esse homem me procurou em todos os bordéis que teve notícia no Rio de Janeiro, procurou a vida inteira, até que ele descobriu, já velho, que eu tinha morrido. Então ele foi no cemitério e como era mandingueiro e tinha vidência, conversou com as pombas giras. ---Estou procurando essa mulher, ela está aqui?
Alguém respondeu: ---Acho que sei quem é, vem comigo. Ela está aqui, mas está dormindo ainda e não quer acordar e vários já tentaram acordá-la. Mostraram o local da cova, sem nenhuma identificação.
      Ele foi o único homem que, entre um programa e outro, me contava algumas coisas que me davam alegria de viver. Nunca contei pra ele sobre minhas crianças. Tinha vergonha porque ele era um homem tão bom e tão feliz e de certa maneira ficava com medo de ele não me procurar mais. 
Bem ele foi até o túmulo e falou: Nossa, ela tem nome...tá muito triste esse túmulo e essa mulher não merece isso, ela me fez um homem tão feliz toda a minha juventude e até homem maduro. Eu pagava ela sim, porque sabia que ela precisava e por ignorância minha não a chamei para ser minha mulher para sempre.
Refletiu um pouco e continuou:  Bem, vou fazer o seguinte, vou enfeitar um pouco este lugar. 
 Colocou lá algumas flores, esse abrigo e esse retrato e falou: 
--- Pois bem, não retornarei mais a esse lugar e uma dia irei vê-la e se ela quizer, falem para ela me ver quando puder.
    E nesse dia eu fui correndo atrás dele pois era o dia que ele estava atravessando e eu levei ele, fiz a passagem dele e foi um dos dias mais felizes da minha vida...e hoje estamos aqui nos vários trabalhos e missões e tenho por ele apreço de pai e de marido...É triste né? Mas é bonita e essa é a minha história. E depois disso fui trabalhar em muitos catiços....

       


Tempos anteriores Vinda para o Sul

              
                  Eu nasci no Estado da Bahia no início do século passado, por volta de 1910. Minha mãe era benzedeira e me ensinava como fazer. Ela também fazia remédios com ervas, pois naquela época era grande a falta de remédio de farmácias. E ela me ensinava as virtudes dessas ervas, a curar feridas e fazer curativos. 

              Então, por causa de grandes dificuldades na Bahia, nós viemos para o Rio de Janeiro. O Rio era a capital do Brasil, cidade famosa, mas não era tão grande e nem existiam os morros com as favelas de hoje. Nessa época existiam os cortiços e foi num desses que viemos morar. Muitos desses cortiços tinham um dono que não era o verdadeiro dono do terreno, mas um tal que invadiu, fez um barraco, emendou em outro e alugou. 

             Nessa vida de moradora no cortiço, eu era mocinha bonita com os cabelos crespos grandes, era morena escura mais voltada para índia do que para negra. Conheci um homem, acreditei na conversa dele, e acabei tendo um filho. Ele era um malandro mesmo, bebia bastante e não ligava para a vida. Ficamos juntos e logo minha mãe adoeceu e eu engravidei do segundo e o malandro foi embora. Disse que ia arrumar trabalho e desapareceu. Eu fiquei sozinha para cuidar dos dois meninos. O pai sabia que eu passava necessidades, mas nunca mais apareceu. Nessa privação só vi o caminho da prostituição e para suportar a vida também passei a me embriagar em casa. Em um sábado resolvi que não iria sair para prostituir e fiquei em casa e me embriaguei. No delírio do bebedeira, inconformada, sem apoios e influenciada pelo pessimismo da vida que alguns escritores da ápoca exaltaram, sufoquei os meus dois meninos com o travesseiro, um após o outro e assim que melhorei da bebida, fugi porque sabia que tinha cometido um crime.
  
                No Rio de Janeiro havia cabarés, que eram casas onde homens ricos mantinham suas amantes. Quando estes homens morriam, as suas esposas nem faziam questão de espólios dessas propriedades e deixavam que ficasse com a amante que também agora ficava sem sustento. Para seguir na vida essas mulheres, já maduras, estabeleciam o negócio de entretenimento para os homens oferecendo momentos de descontração, bebidas, danças e mulheres. Nesses cabarés os homens iam para se divertir e suas esposas muitas vezes sabiam e não lhes admoestavam. Lá eles jantavam, encontravam os amigos, conversavam suas atividades, faziam negócios, dançavam e havia moças jovens e bonitas que lhes completavam o bem estar. Essas moças  eram o atrativo da casa para todos os seus negócios e não se lhes perguntavam seu passado para oferecer-lhes trabalho. Numa dessas casas eu fiquei trabalhando, arrumando e principalmente sendo enfermeira das moças ali. Mas também necessitava prostituir senão não teria recursos suficientes. Nessa casa tinha seus momentos alegres, divertidos, outras vezes tristes e assim eu ia ficando sempre temendo e arrependida.  
             O sexo quando feito por prazer ele dá energia, mas quando praticado por necessidade, egoísmo ou à força ele drena as energias e aniquila a pessoa. Eu já estava num grande esgotamento que até transparecia no físico, estava mesmo velha, quando apareceu no cabaré um homem negro, vistoso, terno branco, educado. Esse senhor tomou um vinho palestrou qualquer coisa e disse que iria dormir essa noite na casa, e me escolheu para essa companhia entre muitas moças jovens. Isso chamou a atenção do pessoal. Durante a noite conversamos muito, ele perguntou muitas coisas, falou muitas amenidades, me elogiou e me senti enlevada pela suavidade desse homem. Foi um momento de restauração de energias, eu senti a vida retornar e vibrar no meu ser. De manhã, assim que ele se preparava para sair eu disse que ele não necessitava pagar nada, que eu estava muito bem, mas ele fez questão de pagar, pagou bem pago e se foi. Voltou outras vezes, disse que queria estar com aquela senhora que ele conheceu e pernoitava, sempre  se interessando muito pelo minha vida e sempre pagando muito bem. Eu não devia mais para a casa, mas já estava mesmo velha e ainda atraindo atenção de homem misterioso que pagava bem. Começaram a cismar comigo, pois havia também inveja de que alguém se desse bem e encontrasse homem que lhes tirasse daquela vida e parece que uma bem mais velha estava para ser escolhida. Mas com o argumento de que eu já não servia mais para trabalhar lá, mu puseram na rua e sem ter onde ficar, não demorou e na rua eu morri.  Mas esse homem voltou no cabaré me procurando e disseram que eu tinha ido embora e nem informaram onde eu poderia estar. Elas sabiam por onde eu andava, mas não contaram para ele, e isso por puro egoísmo. 
                Esse homem andou a me procurar por muitos lugares e perguntar por minha pessoa. Então ele resolveu ir até o cemitério e lá, como ele conhecia o candomblé e tinha vidência, viu algumas pombas giras e perguntou sobre mim. Foi quando elas me levaram até minha sepultura, que era apenas um montinho de terra. Ele olhou e disse que estava muito abandonado aquele lugar e que eu merecia algo melhor. Então ele saiu e mais tarde voltou com uma enxada, algumas flores e uma fotografia minha. Organizou um jardinzinho no montículo mortuário, arranjou as flores e colocou uma placa com o retrato que ele havia pego das minhas coisas no cabaré e eu nem dera falta dele. Por isso que havia lá esse retrato.

         









           

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Boiadeiro Irmãos Revolução

Julho de 2015

O boiadeiro Sebastião de Aparecida veio para contar um pouco da nossa história

Jetoá pra todos!
Vamos nos lembrar dos tempos em que vivemos juntos encarnado. Vivemos no Mato Grosso no tempo da Guerra do Paraguai. Nosso pai era lá um posseiro, ou a quem os grandes senhores permitiam que ocupasse alguma terra por lá. Fomos irmãos, eu era o mais velho, o hoje seu tio Josué era o irmão do meio e vosmecê era o irmão mais novo e tinha mais uma irmã.
       Então começou essa guerra, a Guerra do Paraguai e eles invadiram o Mato Grosso em primeiro lugar, lá em Corumbá e tomaram tudo mesmo, sem resistência, porque os brasileiros eram poucos ali e nenhuma força militar existia. O Paraguai era já uma república, entraram lá com um exército de gente que sabia que estava em guerra e sabia porque estavam guerreando. 

          Pois muito bem, depois desse ataque todo apareceu por lá uma força do império do Brasil, arrebanhando "voluntários" para a guerra, pois esse era o único meio de recrutar do império. Chegavam para um pai de família e pediam que mandasse seus filhos para a guerra, e pagavam um dinheiro para esse pai para evitar revoltas, porque os "voluntários" eram na prática constrangidos a ir para a guerra. Então os pais recebiam a indenização e diziam para os filhos, muitos deles garotos ainda, que fossem e na primeira oportunidade fugissem pro mato. E foi isso que disse nosso pai pra nós. Eu tinha 15 anos, você tinha 11, o outro tinha lá pelos 13. Nós não éramos brancos, tinha mistura de negro porque nosso pai era desses portugueses que vieram deportados para o Brasil e aqui teve filhos com escravas negras...

        Aquele lugar era muito pantanoso, difícil de guerrear lá. Pegamos nosso mosquetão, o uniforme, algumas moedas e nos mandaram pra se juntar com a força. Fomos juntamos e logo sumimos no mato. O uniforme era calça branca e camisa azul marinho, e a gente tava no meio do verde da mata, qualquer um via. 

Acima, o Enfield Pattern 1853, denominado no Brasil de Enfield 1858, primeiramente em calibre .577 (14,6mm) e depois convertido para pontas Minié de 14,8mm. 

Também os donos  de escravos, cediam escravos para a guerra, e os que sobrevivessem seriam alforriados. 
  
       Teve uma batalha que eu subi em cima de uma árvore e fiquei lá em cima bastante tempo enquanto o tiroteio rasgava. Sofri porque tinha fome, tinha necessidade e não podia descer de lá e ainda tinha o risco de alguem me ver lá e me abater.  Outra vêz também, ja a tardinha subi numa árvore e lá no alto ci que tinha mais três escondidos. Os negros tiravam a roupara para subir nas árvores e não ser visto, por causa da calça branca. Também por isso o paraguaios os chamavam de macacos. Essa calça branca denunciava muito, então muitos soldados e até mesmo oficiais entravam na lama dos pântanos com ela e enchiam de crostas de barro para poder camuflar.
Baioneta usada pelas tropas
         Pois então, foi essa a primeira encarnação tua que você não matou índio. Você era um menino ainda, até apontava o mosquetão mas nunca atirou num paraguaio, que eram quse todos índios guaranís. Também os paraguaios não davam importância a você como soldado menino,  os que te viram não perseguiram e nem levaram a sério. De alguma maneira você teve oportunidade de abater um guarani e não fez e isso lhe rendeu créditos espirituais. Você também morreu muito moço, com 25 anos, em um bar, por três tiros no peito e nem teve enterro, foi enterrado como indigente. Talvez foi por mulher. Mas também nos bares na época morriam muita gente, todo mundo andava armado. Eu também fui enterrado assim, mas muito tempo depois no nordeste. Fui morto por um  tiro nas costas na cama de uma moça que não contou que tinha namorado. Não reclamei. 
         Você não matou nessa encarnação, mas eu matei muita gente, e nem por isso fui muito cobrado do outro lado, porque os que eu matei não prestavam e tinham muitas contas a acertar, então não quiseram aparecer pra cobrar ou não puderam fazer isso. Nunca matei gente boa, mas gente ruim matei muitos.

a guerra me ajudou muito, foi onde aprendi a atirar, a manejar armas e foi esse meu ofício dalí  pra diante. Boiadeiro, capataz, cangaceiro, etc..

Depois dessa guerra acabar e as coisas voltarem ao normal eu passei a andar livremente, com a fama de ter lutado na guerra. Nunca disse que fugia das batalhas e até inventava que tinha sido oficial e isso abriu caminho pra muito trabalho. Nunca entendi o porque da guerra, mas no pouco tempo que fiquei nela aprendi muito. Só o fato de saber manusear o mosquetão e alguém saber que eu já tinha matado gente, era garantia de respeito e de trabalho também.

sábado, 15 de agosto de 2015

CIGANO GONZALES NA ESPIRITUALIDADE

 JULHO 2015

        Já disse que morri em México na Revolução. Estava apartado da comunidade gitana por grande desilusão amorosa. Na tradição cigana os pais negociam e determinam o casamento de seus filhos e filhas, sem que estes participem da escolha. O clã é sagrado e pode sim haver amor entre os esposos. Eu gostava muito de minha esposa, me vi fortemente apegado a ela, mas ela resolveu deixar a caravana e viver com um não gitano rico e levou com elas os filhos. Apegado e ferido pela dor do desprezo passei a odiar todos os ricos não gitanos, afastei-me da tribo também e passei a viver pelo mundo ora só, ora com outros ciganos também desgarrados. Nessas andanças, viajei pela Bolívia, onde tive filhos com duas irmãs índias aymaras. Isso mesmo, pois a esposa mesmo me mandou que atendesse sua irmã, pois isso não lhes incomodava como a nós outros. Saí de Argentina e passei a andar pela América do sul, Chile, Perú, pelos Andes, vendo o sol nascer por todos os lugares, até chegar a México. 
          Então em México era fatal o encontro com o povo pobre, com os revoltosos de Emiliano Zapata e Pancho Vila. A mim não interessava a revolução, apenas perguntei porque se revoltavam.Responderam que era por causa da terra, que era deles e estrangeiros ricos cercaram e não lhes permitiam entrar e viver da terra. Pronto, meu passado falou alto, lembrei dos não maus não gitanos ricos, e eles estavam ali a maltratar os pobres. Senti então o ímpeto e necessidade de entrar na revolução e me alistei. Deram a mim um fuzil e por um tempo fiz treinamento. 
         Chegou um dia, embarcamos num trem militar revolucionário e fomos para o campo da morte, para a frente de batalha. Os comandantes ordenaram que se abrissem as portas e os primeiros deveriam sair atirando no inimigo entrincheirado. Esses primeiros eram os estrangeiros, ciganos etc.. Saltei do trem atirando, engatilhei atirei novamente ao lado dos companheiros, atirei, engatilhei, atirava e avançava, e via o inimigo avançar também contra nós. Então olhei para trás e vi meu corpo caído e ensanguentado, bem como muitos outros corpos. 
           Eu já estava morto e muitos companheiros também e muitos inimigos também avançavam mas já em espírito, plasmando a batalha. Prosseguia o combate e o campo da morte se cobria de corpos e de espíritos fora destes. Teve uma hora que a batalha acabou. Os que venceram o combate ou fugiram ou foram embora e nós, espíritos, não sabíamos para onde ir, nem o que fazer. Sabia que estava morto e a tradição gitana dizia que deveria ser colocada uma moeda sobre o corpo do finado para que o espírito pagasse o barqueiro do rio da passagem. Não tinha nenhuma moeda e meu corpo também não portava nenhuma moeda. Tinha embarcado para a guerra desprevenido do dinheiro para o pagamento ao barqueiro das almas. Não sabendo o que fazer nem para onde ir, fiquei parado vendo se acontecia alguma coisa.  
          Então apareceu uma criança indígena, uma criança asteca mexicana, que colocou um moeda sobre cada corpo morto, aquela mesma moedinha asteca do filme dos piratas. Esse era o pagamento para o barqueiro. Fui até o meu corpo e peguei a moeda. E então a paisagem modificou-se....Atrás de nós e ao nosso lado ficou tudo escuro, e só à nossa frente existia um caminho. Não havia mais escolha. Até antes da morte tínhamos muitas escolhas, seja para não vir para guerra, seja para fugir dela, etc., mas de agora em diante, havia um só caminho a seguir. E fomos por ele.
          Avançamos por esse caminho e logo avistamos um grande rios de águas escuras e lá estava o barqueiro a nos aguardar com seu jeitão um tanto debochado. Aos brados chamou ao barco, que nada tínhamos que esperar em contemplações ali, recolheu os pagamentos e avisou que não se pusessem as mãos nas águas do rio, pois que eram povoadas de seres trevosos.
          Todos a bordo e o barco flutuou sobre as águas tétricas e alcançamos a outra margem onde nos aguardavam. Lá estavam meu pai e minha mãe, que já tinham partido havia muitos anos. Foi muito grande a alegria do reencontro. Palestramos e perguntei sobre a pessoa a quem eu tivera tanto apego e disseram que tudo tem seu tempo. Pensava eu que iria acompanhá-los quando alguns outros vieram nos buscar para irmos com eles em comitiva com um guia. Meu pai disse: --- Vá hijo, vá continuar sua jornada, não virá conosco por agora.

      Juntei-me ao grupo, que antes eramos inimigos em luta pela terra, mas agora não tinha mais terra, não havia mais disputas.
Tomamos caminho de uma floresta, uma mata grande e foi então que encontramos o Seu Mata Virgem, Seu Sete Chamas, esse pessoal dessa equipe espiritual que trabalha hoje aqui. Esse pessoal estava oferecendo trabalho. Íamos passando e eles perguntavam -- trabajo?, quierem trabajar? --- não diziam qual tipo de trabalho e nem se tínhamos qualificações. Só ofereciam trabalho e muitos eram os que ofereciam...
        Aos que aceitavam, encaminhavam aos colegas para prosseguir. Segui o grupo do Seu Mata Virgem, o mesmo desse hijo médium.
        Quis saber como poderia encontrar a pessoa pela qual tivera tanto apego em vida e disseram que não poderia encontrá-la ainda. Tinha de caminhar mais um pouco.
         Depois de muito trabalhar com seu Mata Virgem e equipe, compreendi melhor as verdades da vida e agradeci aquela que me provocou tanta dor, porque ela me colocou em contato direto para eu vencer um inimigo muito poderoso que se chama APEGO. Depois disso, pudemos nos encontrar naturalmente como grandes amigos e com todo respeito.

                                     Em Mendoza

         Gitano Gonzales, de nacionalidade argentina, por volta de 1910, vivia com seu clã a circular pelo país. Viajam e ficavam algum tempo em um local, trabalhavam, comerciavam e logo se deslocavam. O trabalho emblemático dos ciganos é ler a sorte, o que é feito somente pelas mulheres, ficando os homens como seguranças delas. A leitura da sorte pelas cartas não era só um meio angariar algum dinheiro. A situação era interpretada realmente e coisas eram adivinhadas, solucionadas e havia verdade nisso. Se ocorria de algum não gitano namorar ou constranger uma mulher cigana, esse era morto pelo clã. Uma vez aconteceu de a mãe de Gonzales, cigana muito formosa, ler as cartas para um senhor não cigano e de posses. Ao interpretar o que via, ela disse que esse senhor pretendia abandonar a família e fugir com uma cigana, a qual era ela mesma e disse também que nesses casos geralmente ocorrem mortes. O homem apavorou-se, sacou a pistola para matá-la, mas o marido que monitorava o trabalho um pouco atrás, estava com a mão para trás com o punhal na mão e ao ver a ameaça da arma, num relâmpago decepou a mão do assassino e ato contínuo, cravou-lhe o punhal o coração. Necessitava esse gesto extremo? Não sabíamos, mas aquele ferimento na mão do homem local era suficiente para destruir todo o clã cigano, pois que a sociedade nem os considerava cidadãos.
         O clã deveria agora urgir com os trabalhos de finalização dos restos do morto. Os ciganos sempre tinham uma fogueira acesa para incinerar seu lixo, mas nesse caso acenderam outra fogueira e nela queimaram o cadáver. Quando o sol saiu os ciganos já estavam longe e dispersos para dificultar a perseguição. Combinaram reencontrar-se na região de Mendoza, onde os produtores de vinho os protegiam, interessados nos seus bons serviços e conhecimento da vinicultura. . Esses ciganos conheciam a técnica apurada da produção de vinho e além disso, como são magos por tradição, aplicavam a magia para encantar o vinho que produziam. Além de muito bons técnicos, também não criavam problemas na produção e não cobravam muito caro seus trabalhos, dada a sua maneira simples de viver.  Lá ficaram o temo suficiente para as coisas se acalmarem, o tempo máximo que puderam suportar em um lugar só. Alguns clãs ciganos até se tornaram proprietários de vinícolas na região de Mendoza e existem até hoje. Ciganos enriquecem, constituem empreendimentos, mas nunca deixam de ser ciganos. Estão sempre a viajar e a encontrar os membros do clã.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

PRIMEIRA NAÇÃO DE OXALÁ

     História de um Erê (pelo Bahiano Toninho)

     -----Saravá!
     ----- Saravá, meu véio, vim trazer mais uma história, quem você delas faça um livro! Muitas ainda vamos trazer e a história de hoje diz respeito a um amigo espiritual dessa roda, desse trabalho, dessa gira. História curta, mas boa de se saber!
        Você sabe que antigamente se matavam as crianças que nasciam defeituosas e esse costume ainda hoje existe entre os índios desta terra. Na África, onde vivi há séculos passados no lugar em que hoje é a Nigéria, isso era muito sério e existia mesmo. Na minha tribo, porque aqui se diz tribo, mas lá nós dizemos nação, não vi isto acontecer, mas sabia que existia e era assunto sério. A minha nação era regida por Iemanjá, Orixá da Fertilidade, e se acontecia de nascer alguém aleijado, matava-se junto a família, principalmente a mãe, por estar ela em falta com Iemanjá, por não ter cuidado direito de um filho da mãe Iemanjá. Também se tinha medo de pessoas com defeitos físicos, diziam que poderiam ser bruxos ou pessoas punidas por Deus.  A historia que vou contar aconteceu em uma nação la pelas terras da Etiópia, há mais de mil anos e nesse tempo de Cristo, de Oxalá.
     Um casal teve um filho nascido com um defeito físico, sem uma perna, sem o toco da perna do joelho pra baixo. Esse menino estava condenado e não havia sentimento de compaixão, pois o pai mesmo entregava o filho para o chefe da tribo para o sacrifício. Mas esse pai foi especial e atendeu ao sentimento da mulher para que não entregasse o menino para a morte. Sentiu compaixão pela companheira e guardou silêncio sobre o nascimento. 
      Passava o tempo e o povo, que já sabia da gravidez, começou a perguntar se já nascera o menino e coisa e tal ao que ele respondia que sim, mas que era melhor que ficasse quieto em casa, que a mãe não queria ainda apresentar o menino. Com a convivência o pai foi se afeiçoando ao filho, coisa que não é apropriada a um guerreiro nessas circunstâncias. A pressão da comunidade aumentava e o chefe então passou a exigir que lhe apresentassem o filho. Diante dessa insistência, ele revestiu o menino com palhas da costa, tal qual Omulú, orixá ou divindade das pestes que tem o rosto e todo o corpo escondido debaixo de palhas e não se vê nem suas pernas quando anda. Levou o chefe e mostrou o menino vestido assim e inventou uma estória de que esse Orixá exigiu que fosse feito assim para trazer boa sorte à tribo. Avisava que não se lhe retirassem as palhas pois poderia a peste recair sobre o povo e que ele teria de usar essas palhas por muito tempo e se manter afastado do contato com a comunidade. Pelo sim, pelo não, o chefe e seus feiticeiros ficaram convencidos. 
    Sete anos passaram-se e o menino não saia de dentro da casa, mas passou a perguntar o por que de não poder sair da casa e insistia que queria conhecer seu povo também. O pai dizia que não, que esperasse mais algumas luas para sair e ia levando o tempo porque ele sabia que não se sacrificava depois dos sete anos e queria completar passar todas as luas para não ter dúvida nenhuma. No entanto a curiosidade foi maior e uma noite o menino aproveitou o sono dos pais e saiu sozinho a andar com sua muleta pela aldeia. Foi caminhando pra um lado e para outro e logo encontrou alguém, que se assustou de ver um aleijado com aquela idade a andar por ali, mas considerou que poderia ter sido acidentado, pois perder a perna em acidente não era considerado defeito e não se sacrificava. Aproximou-se e passou a conversar com o menino e assuntar-lhe a origem e assim descobriu de quem ele era filho e se lembrou das artimanhas do seu pai para não mostrá-lo para o povo. Disse então ao garoto que esperasse ali, que ele iria trazer alguem que queria muito conversar com ele. Logo voltou com o chefe feiticeiro da tribo, que lhe perguntou a origem e constatando que fora ludibriado pelo seu pai, para salvar-lhe a vida e então matou o garoto.
        No meio da noite o pai acorda e dá conta do sumiço do filho e sai a procurar. Não demora encontrar com o tal sentinela que lhe diz: --você quer teu filho aleijado? Olha ele aqui! --- e lhe apresenta a cabeça do garoto, contando que o feiticeiro chefe o tinha morto. O pai sabia que usariam seu corpo em magia para tornar aleijados os inimigos. O pai, um homem forte, ferido pela dor, agarrou o sentinela e exigiu que lhe levasse ao feiticeiro e lá chegando matou os dois e resgatou o corpo do filho.
       Voltou para casa, pegou a mulher e fugiram da aldeia. Não faziam mais parte daquele povo. Quem tentou impedir a fuga, foi morto ou ferido, tal a determinação desse pai. Avisou a todos, no meio daquela noite que qualquer um que ele visse daquela nação ele ia matar, então que não o seguissem, porque ele iria pra longe, não mandaria noticias e nem queria noticias dessa nação. O povo, sem o feiticeiro chefe, sem o sentinela, diante daquele guerreiro negro grande e forte, não ousou arriscar a vida e assim  ele e mulher sumiram na escuridão.
        Assim que amanheceu, deliberaram e acharam melhor não fazer perseguição pois o guerreiro já tinha matado alguns e com a raiva que estava, mataria tantos quantos pudesse. Observaram que ele tinha levado o corpo do filho e se ele resolvesse fazer magia contra eles, usando o corpo do próprio filho, teria muito mais força do que qualquer feiticeiro, e poderia aleijar a tribo inteira. Era melhor não provocar, e esperar para que ele sumisse pra bem longe!
        Então esse pai caminhou rápido, levando a mulher e o corpo do filho para bem longe, onde o enterrou e declarou seu propósito  
de fundar uma nação muito especial em sua homenagem.
        Caminharam sem parar e dois dias depois viram fugir deles uma mulher com uma criança albina. Disseram que não temesse e que poderia juntar-se a eles. Sabiam que ela fugia porque o povo lhe roubaria a filho albino para uso em magia negra. Existia a prática do canibalismo, mas eles só comiam carne de gente forte, perfeita, para sugar a energia do corpo forte. Não comiam os corpos de deficientes, mas os albinos eram um caso especia porque acreditavam que era a carne de Oxalá e que dava sorte, riqueza e poder. Albinos eram caçados e partes de seus corpos eram usadas pelos feiticeiros em operações de magia negra, de enriquecimento. Existia um comércio altamente lucrativo de corpos de albinos, e havia caçadores ávidos deles. 
          Juntou-se a eles essa mulher e o filho, e logo ficaram sabendo onde tinham outras mães de crianças albinas fugidas e foram se juntando a elas. Também mães de crianças com defeitos físicos, jovens deficientes fugitivos isolados, e não demorou formaram uma nação, formaram a primeira Nação de Oxalá e isso é fato e não lenda e essa nação se estabeleceu, sobreviveu e ainda existem remanescentes deles atualmente.
          Oxalá é o protetor de todos com defeitos físicos e albinos, sofredores etc. Oxalá é sincretizado hoje com JESUS. A lenda de Oxalá em várias versões é a seguinte: Oxalá é o primeiro filho de Olorum (O Senhor do Céu), que é o Deus único, criador absoluto e origem de tudo e todos. Oxalá foi incumbido por Olorum de criar os seres humanos. Ele os criava, moldando os corpos do lôdo do fundo da lagoa de Nanã, a mãe terra, e depois os deixando a assar no forno. Quando estivessem pretos e bem rígidos, como ocorrem com os tijolos muito queimados, ele lhes soprava o alento da vida e eles se tornavam seres humanos. Dessa forma eram os negros os seres perfeitos da criação. Mas aconteceu que uma vez, o orixá Exu, melindrado por Oxalá se esquecer de lhe fazer oferendas, o enganou e o fez ficar com muita sede e lhe deu vinho alcoólico de palma para matar a sede. Oxalá bebeu além da conta e embriagou-se. Passou a trabalhar ébrio e descontrolou-se no tempo de queima do barro dos corpos, e retirou alguns ainda brancos, outros ainda moles e deformados e pela força de Olorum lhes soprou a vida animando esses corpos defeituosos. Assim que recuperou a lucidez, condoeu-se muito da situação daqueles corpos animados sem estar completamente enrigecidos e então tomou a si o encargo de proteger todos esses em toda a duração de suas vidas, de maneira muito especial!
      Por isso essa nação ficou sendo chamada a Nação de Oxalá!
      -----Já sabe de qual entidade que trabalha aqui, com este médium e com vocês, eu estou falando? 
         ----- não...
         ----- Essa é a história do Erê Tiaguinho, esse menino bem pretinho, que fala com vocês e sabe onde estão todos os seus parentes e amigos que já morreram e voltaram para o mundo dos espíritos. Ele vem nessa energia de criança, mas é um ser muito grande! E também foi muito guerreiro, matou gente também nas guerras etc..Mas é maravilhosamente bom e pleno de luz.
            E não foi apenas essa Nação de Oxalá que ele fundou na África! Ele também conduziu uma cruzada de crianças, antes daquela documentada pela história, eram crianças aleijadas também, abandonadas pelas famílias. Foram todas dizimadas ou escravizadas ao longo do caminho.
           Depois desses eventos, resolveu que nas suas reencarnações não mais se tornaria adulta. Ele viria encarnar e antes dos sete anos ele morreria. Ele faz isso para ajudar os pais, cujos filhos morrem crianças, porque eles ainda tinham dívidas a resgatar por haverem matado crianças e não se arrependido ainda. Precisam sentir a dor da perda para avançar. Dessa forma ele reencarna nessas famílias, e por volta dos sete anos, sem nenhuma doença, sem nenhuma explicação, ele morre. Ou então fica doente sem cura e morre criança. E essa impotência e dor que sentem os pais lhes toca o coração e os faz buscar o caminho de luz, da fé, de Deus, da Paz, do Amor, da Verdadeira Vida.
        Tiaguinho já foi também pai e filho deste moço médium que fala por mim agora. Este moço médium também matou criança em passado muito longiquo...E o Tiaguinho uma vez foi pai dele, morreu e voltou depois como filho dele, ou seja, o neto era a reencarnação do avô! Veio e morreu com sete anos...  
      --- E essa encarnação africana do Tiaguinho ocorreu antes das cruzadas? Há mais de mil anos?
     ---- Aconteceu antes das cruzadas, mas aconteceu depois da vinda de Jesus, porque quando Jesus veio, a aura do planeta se limpou muito! Ele encarnou na Judeia, mas muitos outros espíritos da elevada esfera dele encarnaram em muitos lugares do planeta para levar a sua mensagem em outras linguagens, em outras culturas e tradições, mas com seu espírito de Verdade e de fé. Muitos encarnaram na África, outros no Oriente, outros entre os índios, outros na China. A palavra e o espírito de vida foi levada para toda a Terra, de muitas maneiras, porque Deus é o Ser Total e não desampara ninguém e dá oportunidade a todos, seja qual for a cultura, religião ou tradição!


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

EXU OKELELÊ VEIO EM ESPÍRITO PARA O BRASIL E CONTA SOBRE ELE, VO BIZÚ, QUINZINHO, SETE CHAMAS NA SENZALA

18 de janeiro de 2015
Com a palavra BAHIANO TONINHO

 Eu venho contar mais um pouco da história de nossos espíritos, porque o Vô Bizu  disse que tem muito o que fazer e deixou para eu relembrar os casos.

Já te contei que estive encarnado na África conhecido por Okelelê, no litoral, e conhecia magia. E por viver a praticar magias sempre interesseiras a mim ou amigos na minha tribo, desencarnei e estive a sofrer nos mundos escuros e de dor. Depois de muito sofrimento fui atraído pelos guardiões exus e fui trazido em espirito para trabalhar numa senzala do Brasil, na Bahia. Depois disso não mais voltei par a Africa.

No trafico de escravos os britânicos foram os primeiros. Eles mandaram forças para a África, e logo constataram que aquele enorme continente abrigava uma gente que apesar de todos serem negros, eles mesmos se diferenciavam entre si, seja por tipo étnico ou simplesmente por tribos, por enfeites etc., e nutriam ódios tribais que jamais terminavam. Não conheciam o pecado, mas também não conheciam a misericordia. Um negro zulu, deveria eliminar todo negro que não fosse zulú, matando-o ou prendendo-o e vendendo como escravo a quem o comprasse e os ocidentais eram compradores ávidos.
        Muito contribuiu para sujeitar completamente os africanos ao poder britânico, o fuzil de retrocarga, inventado no século XVIII. Na África os brancos eram poucos e os mosquetes e armas de carregar pelo cano, não impediam que o grande numero de inimigos negros dominasse o pequeno numero de brancos. Mas com a possibilidade oferecida pelo fuzil de retrocarga quando o soldado rapidamente introduzia um cartucho completo pela culatra da arma, podendo dar até sete tiros por minuto, os africanos perderam a guerra.
        Se não haviam para comprar negros capturados pelos seus inimigos também negros, as armas de fogo eram recurso seguro de provimento de escravos aos civilizados.
         Então foram traficados um sem numero de negros capturados de todas as etnias. Esse contingente era embarcado nos navios negreiros, todos juntos, inimigos, adversários, etc., todas as etnias lado a lado e o resultado era devastador. Os aprisionados guerreavam entre si, inimigos naturais que eram na África. Eram grandes as baixas nessas viagens, mais da metade morria. Os cativos só foram dar-se conta de que deveriam se unir quando desembarcavam em terra estranha, tendo um mar a separa-los de seu continente.  Daí surgiu o candomblé no Brasil, unindo os Orixás de todas a tribos e ressignificando sua cultura. Os ódios étnicos e tribais não tinham razão de ser entre escravos. Não mais existiam tribos.
         Dessa forma veio escravizado para o Brasil no século VXIII  o hoje Vô Bizu, moço ainda, que morava onde hoje é a Nigéria, no interior enquanto eu morava no litoral tendo Yemanja como Orixá. Bizu foi vendido para um senhor de engenho na Bahia, e na senzala conheceu o Quinzinho, o varão reprodutor da senzala. Aqui continuaram seu culto africano, bateram os tambores, cantaram e vieram atende-los os seus espíritos ancestrais, exus etc. etc. Esses guardiões exus trouxeram para trabalhar na senzala outros espíritos da África e um deles, eu, o feiticeiro  morto africano  Okelelê, que ali ficava a fazer quase nada além de olhar, mas me preparava para exercer como exu para o Bizú. Não vim da África como escravo. Vim trabalhar com os escravos negros, nunca fui escravo, pois quando reencarnei em Salvador, já existia a Lei do Ventre Livre.
       Bizu chegou na senzala e foi apresentado ao Quinzinho, que era o Pai da senzala, o reprodutor e pai, o conselheiro e sacerdote, o mago e protetor. Então eles tiveram que inventar a África brasileira. Quinzinho veio já adulto da África, conhecia muito a magia africana. Bizu veio rapazote e também se dedicava à magia,  não tinha o desenvolvimento, mas já tinha a vidência. Quinzinho passou a desenvolver Bizu nas evocações, nos ritos ancestrais. Negros de várias nações ali estavam sujeitados e estavam fundando um novo mundo, uma nova religião, uma maneira de viver diferente da África, não tinham direito a nada, mas também não deveria haver ódios tribais. Ainda havia algum ódio. O capitão do mato era negro mau, egoísta, sádico, corrupto, e muitas vezes era originário de tribo diferente da senzala e ainda alimentava ódio tribal.
     Nesse trabalho espiritual, Bizu tanto praticou, tanto fez que um dia ele viu minha figura. Fugiu apavorado, dizendo que via um demônio muito feio. Eu devia mesmo ser muito feio e fedido também porque quando cheguei acompanhando a falange dos exus, os mestres da senzala anunciaram que tinha chegado um ancestral para trabalhar ali e que fedia muito. Pois bem, Bizu me viu e saiu em fuga dizendo a Quinzinho que um demônio o ameaçava. Quinzinho falou comigo, e fomos apresentados para trabalhar conjuntamente.
       Quinzinho era muito amado na senzala, muito respeitado, mas tinha inimigos também. Havia um escravo que tinha muito ciúme da posição de Quinzinho, de como ele influenciava, de ele ser o reprodutor etc.. e resolveu mata-lo. Pediu emprestada ao capitão do mato sua garrucha, que este depois disse que ele lha roubara, e diante do povo reunido com Quinzinho, pretextando uma gravidez que este infundira à sua mulher dez anos antes, disparou contra Quinzinho. O povo reagiu e de imediato abateu o assassino. A senzala estava sem pai agora e o mais próximo do Quinzinho era o Bizu. A senzala alvoroçada precisava saber o que fazer. Este era o momento de se revoltar, e agora eles tinham uma arma. Iam fazer a revolta agora, e Bizu repentinamente elevado a pai da senzala deveria dar a ordem. Precisava pensar rápido e Bizu não pestanejou. Essa arma já trouxe morte para nós e não nos vai trazer liberdade. Devolva-se já ao seu dono, o capitão do mato. O capitão desculpou-se dizendo que o assassino lhe roubara a arma e as coisas continuaram, agora com Bizu como o pai da senzala e como era negro forte e saudável, passou a ser o varão reprodutor e isto lhe era muito constrangedor.
      Eu sempre aparecia ao Bizu a lhe inspirar revolta, guerra contra o senhor, fuga, etc., mas Bizu não se abalava. ele sabia dos riscos e tinha também sabedoria ancestral.
      O Sinhô tinha muitos filhos, e deixou um deles para ser o novo Sinhô. Esse moço era totalmente sem de respeito qualquer. Logo que assumiu os mandos, entrou a senzala e violentou um escrava, e fez isso diante de todos, para humilhar Bizú, com o capanga lhe guardando dizia, o que é que você pode fazer??? E Bizú manteve a firmeza pra não por tudo a perder. Teve de sofrer calado a humilhação a todos.
      Mas não ficava nisso, sinhozinho voltava e de novo fazia seu espetáculo pra todos verem, parece que esse era seu prazer! Ofender, submeter, Humilhar! O povo queria partir pra revolta, mas Bizú sabia que os negros não teriam chance. A humilhação ficou insuportável e então Bizú me chamou, pediu ajuda pro Exu Okelelê!!! E quando exu aparece é muito diferente do que vocês vêm hoje, exu educado, cumprimentando, tendo paciência. Não é assim. Exu aparece desafiando, gargalhando, causando. Então seu Bizú, agora tá precisando de ajuda?? Eu já não disse que devia fazer a revolta na senzala? E o que você lucrou esperando? Eu não vou ajudar coisa nenhuma!!! Você que se vire com esse sinhozinho! Fiz esse barulho todo, mas é claro que eu queria trabalhar. Seu Okelelê, a situação escapa do controle e necessito operar na magia. Você pode me ajudar? Precisamos dar o trôco e uma lição nesse sinhozinho...
         Depois de muitas exigências etc. resolvi que ia ajudar, e usando meus conhecimentos da África, fizemos uma magia da seguinte maneira: Tomamos o esperma do sinhozinho, isso mesmo, o imbecíl deixava seu sêmen nas negras que violentava, sem saber o perigo que corria. Pegamos um pouco do sêmem, fizemos uma ........, pegamos uma cobra venenosa, uma jararaca.... ..........., ela foi se aninhando ..... e então................
         Muito bem, o restante da magia o senhor decide se vai escrever... Terminando o trabalho, esperamos pra ser se dava certo. E no outro dia lá vem o sinhozinho, todo cheio da pose, com o capanga do lado. Entrou na senzala, dirigiu-se a uma negra bonita e forte e lha agarrou, arrancou-lhe as roupas e atacou. Mas algo não deu certo. Ele não teve potência para penetrar a negra. Tentou, apavorou-se e não conseguiu. Saiu dali doido. 
          No outro dia lá vem ele de novo, agora vem sozinho, vem muito excitado mas não quis arriscar na presença do capanga. Entrou na senzala, olhou devagar e pegou um negra muito jovem, bem mocinha. Arrancou-lhe o gibão desnudando-a e armou-se na sua espetaculosa obra. Mas ao consumar, viu-se de novo sem potência. A negrinha de olhos esbugalhados foi empurrada com violência para longe. Pensou logo em alguma macumba. No terceiro dia, escolheu uma negra jovem esposa de um escravo, na esperança que a humilhação ao marido lhe daria forças. Tinha potência antes, mas na hora, perdia as forças. Em uma situação a escrava negra zombou de sua incapacidade e ela matou a mulher.
         Estava convicto que Bizu lhe tinha feito macumba e foi lhe dirigir ordens e impropérios para desfazer o malefício. Mas Bizu, confirmou o feito e disse que ele nunca ia esquecer dele durante toda sua longa vida de impotente. Ele então mandou açoitar Bizu, para mata-lo no tronco. Quando era levado Bizu disse ao povo que não ia morrer no tronco. Os feitores tinham um tal jeito de armar o golpe do chicote que no golpe arrancavam pedaços de carne e muitas vezes quebravam as costelas dos açoitados. Bizu  suportou 7 chicotadas mortais sem morrer. O feitor cansou de bater e mandou que o recolhessem. Ele saiu vivo do tronco. As negras cuidaram dele e voltaram todas alegres porque ele estava bem, parecia que logo se recuperava. E lá ficou bizu deitado no seu catre. Então ele se levantou, saudou a mim, seu exu guardião e me agradeceu a parceira e daí eu vi ele de pé, mas vi também o seu corpo deitado no catre.
Bizu morrera e partia...

     Bizu morreu! E agora? Dizia o povo da senzala!
     Bizu morreu! E agora? pensou o sinhozinho que não demorou a perceber que tinha se condenado à impotência para sempre, pois o único que podia lhe devolver a força, agora estava morto por sua ordem! 
         E foi assim mesmo, viveu até a velhice, sempre impotente.

     Os escravos então olhavam sinhozinho com desprezo e ódio. Ou ainda pior o olhavam divertidos a lhe gritar com os olhares sua desdita. Sinhozinho quis acabar com sua vergonha naquela senzala. Mandou fechar a senzala e incendiá-la para que todos que conhecessem sua humilhante impotência morressem.
Então veio o exu Sete Chamas, riscou ali seu ponto, a senzala pegou fogo e todos foram queimados vivos e um deles, um negrinho interessado em magia, mas que andava com um rosário nas mãos. Esse negrinho era encarnação desse moço médium que fala as palavras deste baiano Toninho, que já o foi feiticeiro Okelelê. Esse médium também fala as palavras do Vô Bizu, e do flamejante exu seu Sete Chamas.